Cientistas atingem 9,7 picokelvin: o que é o zero absoluto?

Física e Química · Ciência e atualidade

Investigadores chineses atingiram uma temperatura equivalente de apenas 9,7 picokelvin numa experiência realizada no espaço. Este resultado aproxima-nos de um limite fascinante da Física: o zero absoluto. Mas como surgiu a ideia de que existe uma temperatura mínima? E porque começa a escala Kelvin em zero?

Ilustração da estação espacial chinesa Tiangong, local da experiência com átomos ultrafrios
Figura 1. Representação da estação espacial chinesa Tiangong (configuração de novembro de 2022). Autor: Shujianyang / Wikimedia Commons, licença CC BY-SA 4.0. Ilustração, não fotografia da experiência.

Um novo recorde de temperatura no espaço

Em novembro de 2026, uma equipa chinesa anunciou um recorde para gases atómicos ultrafrios produzidos no espaço. O resultado, publicado em Science a 5 de novembro, foi obtido na estação espacial Tiangong: uma temperatura equivalente de 9,7 picokelvin (pK), associada à expansão de uma nuvem de cerca de 20 mil átomos de rubídio [1, 2].

Um picokelvin é uma milionésima de milionésima parte de um kelvin:

1 pK = 10−12 K
9,7 pK = 0,000 000 000 009 7 K

Importante: não foi a estação espacial inteira que atingiu esta temperatura. O valor caracteriza o movimento extremamente lento de expansão da nuvem atómica e é apresentado pelos investigadores como uma temperatura equivalente. O resultado experimental também tem incerteza de medição [1].

O que é o zero absoluto?

O zero absoluto corresponde a 0 K, ou exatamente −273,15 °C. É o limite inferior da temperatura termodinâmica [3].

0 K = −273,15 °C

À medida que um sistema arrefece, a agitação térmica das suas partículas tende a diminuir. Num gás ideal, por exemplo, a temperatura está relacionada com a energia cinética média de translação das partículas. No entanto, a Física Quântica mostra que mesmo no zero absoluto pode existir movimento de ponto zero: não é correto dizer que tudo ficaria completamente imóvel [3].

A terceira lei da Termodinâmica estabelece que não é possível atingir exatamente o zero absoluto através de um número finito de processos de arrefecimento.

Como surgiu a ideia de uma temperatura mínima?

Os primeiros termómetros dependiam de propriedades de substâncias, como a expansão de líquidos. Os cientistas começaram depois a estudar como a pressão e o volume dos gases variavam com a temperatura. Nos séculos XVIII e XIX, trabalhos de vários investigadores ajudaram a estabelecer a possibilidade de um limite inferior da temperatura [4].

Num modelo de gás ideal, mantendo a pressão constante, o volume é proporcional à temperatura absoluta. Se representarmos o volume em função da temperatura em graus Celsius e prolongarmos a reta até volume nulo, a interseção ocorre a −273,15 °C.

−273,150150Temperatura / °CVolume (unidades arbitrárias)ExtrapolaçãoModelo ideal
Figura 2. Representação esquemática de uma extrapolação do modelo de gás ideal. Ilustração original: EstudaFQ. Não representa medições experimentais; gases reais podem condensar antes de se aproximarem de zero absoluto.

Este raciocínio foi importante historicamente, mas exige um cuidado: os gases reais não continuam a obedecer ao modelo ideal até 0 K. Antes disso, podem ocorrer mudanças de estado físico. Por isso, a extrapolação é uma ferramenta conceptual e não uma previsão de que um gás real possa chegar a volume zero.

Quem foi Lord Kelvin e quando surgiu a escala Kelvin?

William Thomson (1824–1907), mais conhecido como Lord Kelvin, foi um físico e matemático britânico que contribuiu decisivamente para a Termodinâmica. Em 1848, publicou On an Absolute Thermometric Scale, propondo uma escala independente da substância usada no termómetro. Estimou então o zero absoluto em cerca de −273 °C [4].

Retrato histórico do físico William Thomson, conhecido como Lord Kelvin
Figura 3. William Thomson, Lord Kelvin, que propôs uma escala absoluta de temperatura em 1848. Imagem histórica / Wikimedia Commons, domínio público. Fonte original identificada pela Wikimedia Commons: University of Glasgow.

A unidade de temperatura termodinâmica do Sistema Internacional recebeu o nome kelvin, símbolo K. Não se escreve «graus Kelvin» nem «°K»: o correto é, por exemplo, 300 K [3].

Como converter graus Celsius em kelvin?

Os intervalos das duas escalas são iguais: uma variação de 1 °C corresponde a uma variação de 1 K. O que muda é a posição do zero.

T (K) = θ (°C) + 273,15

Por exemplo, para 25 °C:

T = 25 + 273,15 = 298,15 K

Para converter kelvin em graus Celsius, usa-se a relação inversa:

θ (°C) = T (K) − 273,15

Como conseguiram os cientistas aproximar-se tanto do zero absoluto?

Os investigadores prepararam um condensado de Bose-Einstein, um estado quântico em que muitos átomos partilham um mesmo estado quântico. Usaram armadilhas óticas e técnicas sucessivas de arrefecimento para reduzir drasticamente a energia associada ao movimento dos átomos [1, 2].

A microgravidade da estação Tiangong permitiu observar a expansão da nuvem atómica durante 7 segundos, muito mais do que é normalmente possível em experiências equivalentes na Terra. Com isso, obtiveram a temperatura equivalente de 9,7 pK, com incerteza experimental, ultrapassando o anterior valor de referência de 38 pK descrito no estudo [1].

A investigação pode apoiar o desenvolvimento de sensores e interferómetros atómicos mais precisos e o estudo de fenómenos fundamentais da Física Quântica.

O essencial: os cientistas não atingiram o zero absoluto. Aproximaram-se extraordinariamente desse limite, mostrando como um conceito desenvolvido no século XIX continua a orientar experiências na fronteira da Física atual.

Perguntas frequentes sobre o zero absoluto e a escala Kelvin

Qual é a temperatura do zero absoluto?

O zero absoluto corresponde exatamente a 0 K, ou −273,15 °C. É o limite inferior da temperatura termodinâmica.

É possível atingir 0 K?

Não através de um número finito de processos de arrefecimento. Podemos aproximar-nos progressivamente desse limite, mas não alcançá-lo exatamente por esses processos.

O que são 9,7 picokelvin?

São 9,7 × 10⁻¹² K, ou 0,000 000 000 009 7 K. Na experiência, trata-se de uma temperatura equivalente associada à expansão de átomos ultrafrios.

Quem criou a escala Kelvin?

William Thomson, conhecido como Lord Kelvin, propôs em 1848 uma escala absoluta de temperatura. A unidade recebeu posteriormente o seu nome.

Qual é a diferença entre graus Celsius e kelvin?

As escalas têm intervalos da mesma dimensão, mas a escala Kelvin começa no zero absoluto. A conversão é T (K) = θ (°C) + 273,15.

Porque é que os cientistas realizaram a experiência no espaço?

A microgravidade permite que a nuvem de átomos seja observada em expansão durante mais tempo, facilitando medições de extrema precisão.

Testa os teus conhecimentos: 5 exercícios sobre a escala Kelvin

Valor total: 100 pontos. Cada questão vale 20 pontos na primeira tentativa, 10 pontos na segunda tentativa e 0 pontos se não acertares em duas tentativas. Quando falhares, recebes uma dica. A resposta correta é explicada no fim de cada questão.

Pontuação atual: 0 / 100

Fontes e referências

  1. Xiong, W. et al. (2026). Quantum gases below 10 picokelvin in space. Science. DOI: 10.1126/science.aea5324. Publicado em 5 de novembro de 2026.
  2. Chinese Academy of Sciences (6 de novembro de 2026). China’s Space Station Sets New Atomic Cooling Record. Consultar artigo.
  3. National Institute of Standards and Technology (NIST). Kelvin: Introduction. Consultar fonte.
  4. National Institute of Standards and Technology (NIST). Kelvin: History. Consultar fonte.

Imagens e ilustrações: os créditos e as respetivas licenças encontram-se nas legendas das figuras. Conteúdo educativo original do EstudaFQ.

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